terça-feira, 16 de junho de 2009

Órfão..


Sim, apenas hoje percebi que estou órfão. Órfão de casa, mesmo de casas. 

O cotidiano dos anos 90 incluia sempre minhas visitas às lojas de cd, e principalmente as minhas favoritas, que incluiam o sebo da savassi, "Páginas antigas", na "Motor Music" e a loja "Sax". Eu comprava Stockhausen a menos de 30 reais, da Harmonia Mundi...

Sentava no sofá, escutava as novidades, as velharias, conversava com os vendedores, descobria muitas coisas nas lojas, e sabendo dos meus gostos encomendavam cd's apenas pensando em mim, coisas que ninguém mais ia comprar. Conhecia os donos. Conhecia pessoas, músicos.

Uma vez, louco para comprar um bom lugar no show do Yes, fiquei na frente da loja antes de abrir, no mesmo dia tinha um prova no colégio, mas fiz rapidamente e corri, literalmente, até a loja e lá fiquei esperando, até que o vendedor apareceu e abriu, e já foi abrindo o lote dos ingressos. Peguei as cadeiras da primeira fileira, bem no meio, paguei e peguei os ingressos (junto estavam ingressos para amigos), no mesmo momento chega o dono, e desesperado não entende, não era para vender já os ingressos, pois a primeira fileira estava reservada... bom, naquela altura das coisas, estava na minha mão, mais precioso do que serem meus ingressos, era o fato de estarem predestinados a outros, e não fosse meu esforço e total compenetração e adoração, não os teria ganhado, foi como iludir o diabo!

As andanças na rua agora são meras andanças no deserto, um dia, um oasis, feira de vinil usado, ali onde era a Motor music, porém, vinil a partir de 40,00 não tem o menor sentido. Não tenho mais uma segunda casa. 

O comércio não é uma coisa muito bonita hoje em dia, mas naqueles anos, e só posso me lembrar dos anos 80 e minhas infinitas buscas por K7 e Vinil e dos anos 90, minha maturidade e flanerismo, numa relação com o desconhecido contido naqueles discos, contidos naquelas lojas.

Nenhum comentário: